Pandemia, ecologia e essas histórias de nós mesmos

23 mar 2020

Por: Fabiano Carnevale – Secretário-adjunto de Relações Internacionais do Partido Verde, Presidente Municipal do PV-Rio.

Durante muitos anos, nós ecologistas fomos chamados de catastrofistas. Exagerados, nós denunciamos o fim de todos nós. Apaixonados, criamos narrativas alternativas terríveis de nós mesmos.

Estávamos errados. Menosprezamos a enorme capacidade da Humanidade de se reinventar. A tal da resiliência.

A atual pandemia expõe o fracasso do neoliberalismo individualista. Seres Humanos são dependentes da solidariedade. O “mercado” capitalista é insustentável sob todos os pontos-de-vista.

Tenho familiares na França, Espanha e Itália. O coração aperta. Tem minha família aqui, tem minha filha e eu.

Minha filha, meu pai, minha irmã, minhas tias, minhas primas, meus sobrinhos, meus amigos e amores espalhados pelo mundo… Não há fronteiras nessas preocupações. Vivemos no mesmo lugar.

Minha filha se irritou ao saber que eu – fumante – faço parte do grupo de risco. Tinha contundência e textura naquela preocupação (acusação).

Meu amigo espanhol (monarquista e conservador) lamentou a situação do seu país. Chorou pelo Brasil, com esse governo de “gilipollas”.

Talvez seja a primeira vez que tenhamos essa noção de um futuro que não nos pertence. Que não é individual.

A percepção dessa visão drástica (e real) da minha filha e as lágrimas do meu amigo me trazem para outra ideia da atualidade. Essa é uma crise da narrativa que queremos contar da história de nós mesmos.

Qual é o nosso papel nessa história?

Está cada vez mais claro que é somente na coletividade que vamos superar essa crise.

É o fracasso do neoliberalismo. E a chance de um novo New Deal, ecológico, sustentável e solidário. Pactuado pelas forças políticas que emergem das ruas de Madri, Buenos Aires, Estocolmo, Rio de Janeiro, Santiago, Rio Branco…

Os países sem “gilipollas” no poder já definiram o tom do enfrentamento: é a maior crise desde a II Guerra.

O planeta mostra sinais de que essa crise humanitária é um ponto de inflexão. Quanto mais solidariedade e coletividade, maiores são as reações positivas dos ecossistemas.

Na mão do mercado as coisas desandam. Na mão das pessoas as soluções aparecem.

Perdoem esse texto fragmentado. Estou há cinco dias escrevendo, reescrevendo, costurando, recosturando e tentando concluir ou construir algum sentido narrativo nesse artigo.

E até agora, eu não tenho a menor ideia de como fazê-lo. São retalhos das minhas anotações dos últimos dias.

E é certo que ele não se encerra por aqui…

fonte: Medium

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