Os 40 anos da Mãe

14 jan 2020

No dia 12 de janeiro de 1980, um grupo de ativistas – entre feministas, pacifistas, movimento anti-nuclear e ambientalistas – se reuniu na cidade de Karlshure para fundar o Die Grünen (Os Verdes), o partido verde alemão.

Não sabiam eles (embora num cenário repleto de desejos e afetos, é possível que se imaginasse), mas estava começando ali um dos movimentos políticos mais importantes daquele fim de século.

Os verdes alemães provocaram um tsunami na política europeia no início da década de 1980. Com suas propostas de democracia radical, enfrentamento da política tradicional e temas controversos para a agenda pública nacional e internacional, chegaram ao Bundestag (o parlamento alemão) em 1983.

Embora não tenham sido o primeiro partido verde do mundo nem o primeiro a chegar num parlamento nacional, o Die Grünen é considerado até hoje como a “mãe dos partidos verdes” e a principal referência do ecologismo mundial.

Nas últimas eleições europeias, os verdes receberam 20,5% dos votos, com a segunda maior votação do país. As pesquisas indicam que a popularidade do partido só aumenta, principalmente entre os jovens entre 17 e 24 anos. Mais de 49% dos alemães acreditam que os verdes são a única força política preocupada com o futuro.

Mas isso não ocorreu de um dia para o outro, nem sem o percurso de um caminho sinuoso e cheio de percalços. Desde a sua fundação, os verdes alemães passaram por inúmeras crises. Essas crise, longe de representarem um fracasso, foram fios condutores no processo de significação e ressignificação para o movimento de ecologia política não só na Alemanha, como em todo o planeta.

O débâcle de 1990, quando o partido ficou de fora do Bundestäg (o parlamento alemão) pela posição contra a unificação das Alemanhas provocou uma cisão entre os Realos (ala mais pragmática) e o Fundis (ala apegada aos princípios fundadores). Mas também foi em 90 que surgiu a aliança que moldaria o partido pelas próximas décadas. A entrada do Bundnis 90 (Aliança 90), uma coalizão de movimentos sociais da recém-extinta Alemanha Oriental e que até hoje dá o nome do partido: Die Grünen/Bündnis 90.

Outro momento fundamental para entendermos a complexa história dos verdes alemães é entrada no governo social-democrata em 1998. Os verdes participaram do governo nacional por 7 anos, tendo como maior polêmica a participação da Alemanha na Guerra do Kosovo. Para muitos, um partido de origem pacifista não poderia fazer parte de uma ofensiva militar, o que provocou a saída de muitos membros de suas fileiras. Parte da enorme (e real) contradição entre os desejos e inspirações das bandeiras históricas ecologistas, e a responsabilidade de construir acordos de governo.

Hoje, os verdes alemães possuem uma tarefa fundamental dentro da política europeia. Com a excelente votação de 2019 e as projeções otimistas para as próximas eleições nacionais, os verdes se preparam para liderar a transição climática na maior economia da União Europeia.

O que vai ser importante analisar do ponto de vista político, é se essa responsabilidade que está sendo dada pelo eleitorado, também será capaz de lidar com as expectativas de um novo modelo político, exigido principalmente pelos jovens que buscam ações imediatas para enfrentar a crise climática mas que também demandam uma maior participação dentro dos espaços de poder.

Encontrar as pontes entre aquele profundo sentimento de transformação e rebeldia dos anos 1980 e o enorme senso de responsabilidade da ocupação de espaços de poder, será o grande desafio dos verdes alemães nos próximos anos.

Mais que um desafio, pode estar na construção dessas pontes, um novo e instigante caminho para fazer da política verde uma referência tanto do enfrentamento da extrema-direita como nos processos de construção política (partidária e de governo).

Como sempre, estaremos atentos aos ventos que nos chegam da Alemanha e que eles cheguem mais uma vez, como inspiração e fonte de debates para o ecologismo em todo o mundo.

Felizes sejam os próximos 40 anos!

Fabiano Carnevale é Secretário-adjunto de Relações Internacionais do PV.

#40JahreGrüne

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