Diários de Madri: 15.12

16 dez 2019

A COP mais longa de todos os tempos. Com 40 horas de atraso, saiu na tarde de domingo (15) o documento oficial produzido pelas partes. Tímido, insuficiente e desconectado das demandas da sociedade civil e das previsões dos cientistas. Basicamente, nenhum avanço em relação ao Acordo de Paris.

O Vexame Brasileiro

O governo Bolsonaro não decepcionou: promoveu um dos maiores vexames de uma delegação na história das COP’s. Ricardo Salles chegou logo na primeira semana, fez compras, espalhou fake news, ergueu o pires exigindo dinheiro para aceitar demandas e foi um dos principais responsáveis pelo atraso no fechamento do acordo.

Desde 2015, critico a incapacidade brasileira de se colocar como protagonistas nas discussões sobre o Clima. Mas o que era uma timidez, transformou-se numa catástrofe.

Com uma visão retrógrada de negociar metas em troca de grana, Salles tentou fazer da COP um balcão de negócios. Com a credibilidade em baixa, só não saiu de mãos vazias porque o Brasil venceu o prêmio “Fóssil do Ano”, entregue pela Climate Action Network aos países que menos contribuem para a minimização dos impactos da Crise Climática.

A “Blue COP”

Uma das prioridades da atual presidência (chilena) da COP era a de ampliar o debate sobre os oceanos e fazer da próxima conferência das partes, uma “Blue COP”.

O Brasil resolveu vetar os parágrafos que tratavam de uso da terra e… dos oceanos. O isolamento foi um constrangimento sem precedentes para a diplomacia brasileira. Indonésia, o Grupo Africano e até Arábia Saudita e Rússia se opuseram ao veto brasileiro.

Isolada, a delegação brasileira recuou. E, quem sabe a COP 26, em Glasgow, seja a COP azul.

Um Modelo em Xeque

O fracasso dessa COP levou a professora Tatiana Roque (UFRJ) a questionar o atual modelo de Cúpula de Governos.

Seria preciso repensar o atual modelo, totalmente suscetível às mudanças de orientação dos governos.

Uma ideia seria implementar um modelo de delegações tri-partites, com governo, parlamento e membros eleitos da Sociedade Civil. E que as decisões dos acordo fossem submetidas a referendo.

Mas sabemos que isso será muito difícil de ser implementado (pelo menos, no curto prazo). Vamos precisar aumentar a pressão em cima dos governos. Sem reduzir o espaço entre o que estão dizendo os cientistas, o que está querendo a sociedade civil e a inação dos governos, estaremos condenando a Humanidade aos efeitos nefastos da Crise Climática.

Não parece razoável que as milhares de pessoas que têm ido às ruas exigir ações imediatas sobre o Clima tenham seus destinos atrelados nas mãos de velhos senhores defensores do modelo que nos levou ao estado atual de coisas.

Para não dizer que eu não falei de flores…

Nem tudo foi fracasso e decepção. Mesmo com a mudança repentina de país-sede, a presença da Sociedade Civil foi bem sentida.

Dezenas de mesas debatendo o papel da mulheres, indígenas e da juventude como protagonistas na resolução dos problemas da emergência climática.

A maior marcha pelo Clima da história, com a participação de mais de meio milhão de pessoas.

As pessoas estão se erguendo contra a inação dos governos. Já não aceitam mais o papel de coadjuvantes passivos. Estão, cada vez mais, exigindo o protagonismo nas discussões climáticas. E isso é uma boa notícia.

Fabiano Carnevale foi delegado oficial da Global Greens na COP-25, é Secretário-Adjunto de Relações Internacionais do Partido Verde e representante da Federação dos Partidos Verdes das Américas (FPVA) na Global Greens.

 

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