Dependência emocional: a dor que aprisiona

07 jan 2020

Por Sirlei Theis 06/01/2020, 00h:02 – Atualizado: 05/01/2020, 22h:06

O relacionamento deles era perfeito aos olhos das outras pessoas, estavam sempre juntos e de mãos dadas. Ele sempre muito atencioso com ela, trazia tudo em suas mãos e também para quem estivesse ao lado dela, não perdendo a oportunidade de fazer uma graça e lançar elogios para as amigas da namorada. Fato era que o comportamento do namorado despertava até uma certa inveja nas amigas, que não perdiam a oportunidade de expressar a admiração que sentiam por ele. Aos poucos ele conquistou todas as pessoas da família e também os amigos dela, foi quando decidiram morar juntos.

Não demorou muito para ela perceber que por traz de todas as gentilezas existia um ciúme exagerado, mas acabou por ignorar porque pensou que fosse normal. Mais tarde percebeu que a atenção e o cuidado que ele manifestava na frente das outras pessoas, na verdade disfarçava o controle dele sobre o que ela comia, bebia e assuntos que conversava com as amigas.

Quando as grosserias começaram a acontecer eram só dentro de casa e sempre vinham seguidas de um pedido de desculpas ou de uma justificativa para tal comportamento, sempre transferindo a responsabilidade para ela. Embora muitas vezes ficasse chateada, acabava por se sentir culpada e se desculpava com ele. Tudo ficava bem até acontecer outra situação que o desagradasse e assim eles seguiam, numa relação cheia de adrenalina. Quando estavam com outras pessoas tudo era perfeito, mas a partir do momento que entravam no carro, o comportamento dele mudava. Qualquer frase que ela tivesse falado ou comportamento que ele julgasse inadequado era motivo para ofensas, humilhações e castigos. Esses eventos começaram a acontecer cada vez com mais frequência e ela, aos poucos, foi se encolhendo no relacionamento, se tornando sombra, começou a perder a autoestima, desenvolveu uma tristeza muito grande que era visível em seus olhos, mesmo quando sorria.

Ela não sabia, mas estava entrando no ciclo da violência e embora percebesse que estava infeliz naquele relacionamento, não conseguia se imaginar longe de tudo aquilo, sofria só de imaginar ficar sem ele. Achava que não conseguiria ficar longe dele, até porque pensava que ele era uma pessoa boa e só lhe ofendia ou gritava quando ela dava motivos.

Certo dia, além das ofensas, ele deu um empurrão e ela perdoou porque segundo ele, ela tinha dado motivos ao lhe irritar. Não parou por ai e quando aconteceu a violência física propriamente dita, ela se encheu de coragem e foi a delegacia para fazer o Boletim de Ocorrência, mas não teve coragem, pois achava que não conseguiria viver sem ele.

Muitas pessoas podem não compreender esse tipo comportamento porque a violência psicológica não deixa marcas físicas, elas ficam na mente da vítima e levam a vários problemas emocionais, que a impedem de denunciar. A dependência emocional pode acontecer antes do que se imagina, conheço casos em que se desenvolveu já nos primeiros meses de relacionamento.

Como explicar o medo de se libertar de um sentimento sufocante, que comprime o peito, que provoca ansiedade e depressão? Como entender a dor de perder aquilo que te machuca? Como se libertar das sensações ainda mais desesperadoras que passam pela mente, só de pensar em ficar longe de todo aquele turbilhão de sentimentos que aprisionam? Como explicar essa dependência que aprisiona a mente da pessoa, a ponto de lhe fazer esquecer de si mesma, esquecer que é capaz e suficiente para realizar o que quiser?

“Amigos e familiares que não conhecem esse sentimento, não conseguem entender o comportamento da vítima e acabam por se afastar no momento que ela mais precisa” Sirlei Theis

A pessoa sabe que não está bem, que naquela relação sente mais tristeza do que alegria, que o relacionamento não é saudável. Ainda assim sente obsessão pela pessoa que lhe machuca emocional e fisicamente, não consegue sequer se imaginar longe de tudo aquilo.

Amigos e familiares que não conhecem esse sentimento, não conseguem entender o comportamento da vítima e acabam por se afastar no momento que ela mais precisa.

Consigo descrever com detalhes o que sente uma vítima de relacionamento abusivo que desenvolveu a dependência emocional, pois vivi um relacionamento toxico que por pouco não me levou a morte. Na primeira oportunidade que ele teve de me bater só não me matou porque estávamos dentro da casa dos pais dele e eles conseguiram segurá-lo impedindo o homicídio. Demorei quase 9 anos para me libertar física e emocionalmente do agressor. Não foi fácil superar cada fase, as vezes eu achava que não iria conseguir, não me conformava em sofrer por alguém que tinha me feito tanto mal. O mais importante nisso tudo é que mesmo sendo difícil eu consegui não só me libertar como reconstruir minha vida em todas as áreas. Emocionalmente, fiz terapia e busquei técnicas que me possibilitaram eliminar crenças e traumas que aquele relacionamento havia provocado em minha mente. Superei, usei cada frase que ele me disse com intuito de destruir o meu emocional para construir uma nova vida.

Quando ele me disse que tinha que me conformar pois nunca passaria num concurso, provei para mim mesma que ele estava errado. Passei num concurso e quatro anos depois de deixa-lo, assumi o cargo de Subsecretária de Estado de Segurança Pública.

Quando ele me disse que não conseguiria viver longe do conforto que ele me proporcionava, fui a luta. Não só consegui viver longe, como me dar o conforto que eu merecia.

Me reconstruí emocionalmente, casei, tive uma filha, venci e o melhor ainda estava por vir.

Finalmente me realizei profundamente quando usei toda esta dor para ajudar outras mulheres que passaram e passam por um relacionamento abusivo. Seja no inicio ou mesmo durante o ciclo da violência, o que tenho visto é que é possível sim recomeçar e dar a volta por cima. Como sempre falo nas minhas palestras, se eu consegui, você também vai conseguir, se dê uma chance. Lembre-se, esta é uma realidade que só vai mudar quando todos se envolverem nesta discussão. Homens e mulheres juntos, sem nenhum tipo de discriminação, numa grande luta pelo fim da violência dentro dos lares.

Sirlei Theis é advogada, especialista em gestão pública, palestrante e treinadora comportamental e escreve com exclusividade para esta coluna às segundas. E-mail: sirleitheis@gmail.com. Instagram: @sirleitheis. Facebook: sirleitheisoficial

Fonte: rdnews.com.br

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